O que você pensa quando vê um morcego? Medo, curiosidade? Quando se fala nesses animais, muita gente logo os associa a vampiros ou ao Batman. No imaginário popular, eles ainda são cercados por mitos que pouco têm a ver com sua verdadeira importância ecológica. Na Universidade Estadual de Maringá (UEM), uma equipe de pesquisadores trabalha há mais de duas décadas para desmistificar e desfazer os estigmas que acompanham esses mamíferos.
O coordenador do Grupo de Estudos em Ecologia de Mamíferos e Educação Ambiental (Geemea), Henrique Ortêncio Filho, conta que a curiosidade é praticamente imediata sempre que alguém ouve falar sobre morcegos. “Ele é um bicho tão extraordinário, tão interessante que o público se interessa gostando ou não. Quando uma pessoa ouve falar de morcego, ela levanta a cabeça para saber o que está acontecendo. O morcego sempre instiga as pessoas”, comenta.
O Geemea se dedica a mostrar que esses animais são fundamentais para o equilíbrio ambiental e para diversas cadeias produtivas. Os morcegos prestam serviços ecológicos essenciais. Eles ajudam no controle biológico de pragas agrícolas, consomem insetos transmissores de doenças e atuam na polinização e dispersão de sementes.
O Laboratório de Ecologia de Mamíferos reúne estudantes de graduação, mestrado e doutorado em mais de 40 projetos que investigam aspectos como alimentação, rotas de deslocamento, comportamento e até a presença de microplásticos nesses animais. Segundo Ortêncio, o grupo cresceu e hoje reúne cerca de 30 integrantes. “São alunos de diferentes níveis e todos trabalhando alguma nuance envolvendo morcegos, um esforço coletivo procurando, sempre que possível, “desvendar um pouquinho alguma coisa” detalha.
A equipe estuda espécies que vivem em ambientes urbanos e rurais. As análises incluem monitoramento acústico, captura para coleta de dados e avaliação de colônias próximas a áreas habitadas. Os pesquisadores observam como esses animais interagem com o ambiente, quais alimentos consomem e de que forma se deslocam.
Entre os trabalhos recentes está a pesquisa da doutoranda Bianca Manin, que investigou a presença do vírus da raiva entre os morcegos do Parque do Ingá. A pergunta sobre a doença, segundo ela, é a que mais ouve quando alguém descobre seu objeto de estudo. “Sempre perguntam sobre o vírus da raiva. Eu queria descobrir se havia o vírus nos morcegos de Maringá”, relata.
O resultado foi tranquilizador. “Capturamos cerca de 200 animais e não encontramos o vírus na saliva. No período da pesquisa, não houve registros”, explica. Bianca reforça que o vírus circula naturalmente na fauna e pode aparecer em diferentes localidades, mas destaca que o monitoramento constante ajuda a compreender riscos reais. “As pessoas ainda acreditam que todo morcego transmite doenças, mas isso não é verdade. A maioria das espécies exerce funções extremamente positivas para o ecossistema”, acrescenta.
Outro mito comum está relacionado à alimentação. Será que eles gostam mesmo de sangue? A imagem dos morcegos-vampiros é famosa, mas pouco representa a realidade. Em Maringá, das 19 espécies registradas, nenhuma é hematófaga. No mundo, apenas três das cerca de 1.500 espécies se alimentam exclusivamente de sangue. A maioria prefere frutas, sementes, insetos e até peixes.
Para Ortêncio, o problema não está no comportamento dos animais, mas na transformação dos ambientes naturais. “Ecologicamente está tudo bem o animal se alimentar de sangue. O ponto é que nós transformamos áreas verdes em regiões de criação de gado e aproximamos a fauna do nosso cotidiano. Os morcegos acabam sendo vistos como vilões quando, na verdade, são vítimas. O ambiente deles está sendo alterado e muitos passam a viver mais próximo das cidades e áreas agrícolas”, ressalta.
A presença deles, porém, está longe de ser uma ameaça. Na verdade, os morcegos desempenham papéis indispensáveis para o equilíbrio ecológico. Eles controlam insetos considerados pragas, polinizam plantas, dispersam sementes e contribuem diretamente para a manutenção dos ecossistemas. “Eles são agricultores da noite”, destaca Ortêncio. “Quando se alimentam de insetos que são pragas agrícolas ou de vetores de doenças, contribuem positivamente com a agricultura e com a saúde humana.” Ele lembra ainda que muitas espécies realizam a polinização de plantas e mantêm processos vitais para a flora. “As pessoas desconhecem esses papéis e acabam associando os morcegos ao negativo”, comenta.
Compreender o comportamento desses animais é uma forma de proteger tanto a biodiversidade quanto as atividades humanas. “Os morcegos são aliados. Quando entendemos seus hábitos e suas rotas, conseguimos propor soluções que beneficiam tanto a fauna quanto as áreas agrícolas”, observa o pesquisador.
Para aproximar o público das evidências científicas, o Geemea promove ações de educação ambiental, como a Noite dos Morcegos, uma trilha noturna no Parque do Ingá que reúne mais de 500 participantes a cada edição. A proposta é apresentar de perto as espécies que vivem no parque e compartilhar informações sobre seus hábitos. Estudantes do grupo preparam estações temáticas ao longo do percurso, onde explicam curiosidades e apresentam os animais com linguagem acessível a todas as idades.
“A Noite dos Morcegos surgiu como uma forma de levar a comunidade a uma situação diferente. O Parque do Ingá é um símbolo da cidade e muitos só o conhecem durante o dia. À noite, é outra realidade”, comenta Ortêncio. Ele ressalta que o evento não é direcionado apenas ao público infantil. “Recebemos mais de 60 por cento de adultos e o objetivo é sempre mostrar o quanto esses animais são importantes para a conservação ambiental.”.
Para Bianca, a admiração pelos morcegos vai além da pesquisa. “Ele é um animal incrível. Eles fazem serviços ecossistêmicos maravilhosos para a gente. Cuidar deles é cuidar do meio ambiente e cuidar dos seres humanos”, destaca.
Apesar dos mitos ainda resistentes, os pesquisadores concordam que a informação é o caminho para transformar percepções. E, caso alguém se depare com um morcego, a orientação é clara: não tocar no animal e acionar o serviço de zoonoses da cidade para que profissionais realizem a captura. A convivência segura depende do respeito e do conhecimento sobre esses pequenos grandes aliados da natureza.
(Adriana Cardoso/Comunicação UEM)