O corpo que antes obedecia, de repente, impõe limites. O sistema de defesa, que deveria proteger o organismo, passa a atacar o próprio sistema nervoso de forma crônica. A Esclerose Múltipla (EM) cria lesões no cérebro e na medula espinhal, provocando incertezas angustiantes. O diagnóstico costuma chegar sem aviso, desafiando a autonomia e os planos de futuro.
Os relatos sobre o impacto da descoberta são semelhantes. No primeiro momento, o sentimento é de espanto. “Realmente foi um susto”, lembra a psicopedagoga Amanda Ruiz. “Eu perdi o movimento da perna esquerda e pensava: será que vou continuar caminhando? Será que vou voltar a ter a qualidade de vida de antes? A esclerose é um susto.”.
Para a enfermeira Gisely Pasquini, o sinal de alerta veio de forma drástica. “Acordei para ir trabalhar e, quando sentei na cama, da cintura para baixo estava totalmente anestesiada. Imaginei que dali para a cadeira de rodas seria um estalo. Meu emocional foi como se um buraco se abrisse”, recorda.
Método inédito
Durante três meses, entre setembro e dezembro de 2024, o educador físico Cleverson José Bezerra Guedes avaliou, na prática, como os exercícios físicos poderiam trazer mais bem-estar aos 28 voluntários com EM que aceitaram participar do projeto. A pesquisa demonstrou que programas estruturados de musculação e alongamento melhoram de forma significativa a rotina dos participantes.
O experimento fez parte da tese de doutorado de Guedes no Programa de Pós-Graduação Associado em Educação Física UEM/UEL (PEF). O tema foi inspirado pela orientadora, professora Luciane Arantes, que convive com o diagnóstico de EM há 14 anos. O estudo contou ainda com a coorientação da professora Fernanda de Souza Teixeira, o apoio do mestrando Éliton Miranda da Silva e a participação de integrantes do Grupo de Estudos de Psicologia do Esporte e Desempenho Humano (GEPEDH).
O desenho metodológico foi rigoroso: um ensaio clínico randomizado na proporção de 2 para 1; a cada duas pessoas no grupo de musculação, uma integrava o grupo de alongamento. Ao todo, 19 treinaram com pesos e 9 realizaram exercícios leves guiados em movimentos de ioga. Segundo o pesquisador, o formato controlado é inédito no país.
“Existem muitos trabalhos com questionários, mas não com aplicação de protocolos de exercício como o nosso. Na América Latina, não encontramos nada semelhante”, explica Guedes. A equipe observou indicadores de fadiga, força, equilíbrio, sintomas de ansiedade e depressão e ainda dosou, no sangue, o Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro (BDNF), marcador associado à neuroplasticidade.
Saldo positivo
Os resultados animaram. Quem participou da musculação apresentou melhora expressiva na disposição, no ganho de força e na redução da fadiga, um dos sintomas mais incapacitantes da EM. “A atividade física é o grande medicamento”, sintetiza a administradora hospitalar Izabel Jordão. “Quanto mais eu faço, melhor eu me sinto. Quando preciso ficar parada, sinto a diferença.”.
O grupo do alongamento também evoluiu, sobretudo nos aspectos emocionais e na qualidade de vida, efeito atribuído à convivência semanal e ao apoio mútuo criado entre os participantes. “Eu achava que o alongamento não ia dar em nada. Achava que seria facinho, mas no outro dia eu estava toda dolorida. Depois percebi que ajudou muito no equilíbrio. Eu tinha vergonha de atravessar a rua com medo de tropeçar. Depois dos exercícios isso mudou muito”, conta a publicitária Camila Poli.
Além disso, os indicadores laboratoriais apontaram melhora na neuroplasticidade, o que representa um dado relevante, já que a Esclerose Múltipla danifica a bainha de mielina, camada protetora dos neurônios, comprometendo funções motoras. “Verificamos melhora significativa da força e redução da fadiga no grupo da musculação. Nos dois grupos houve avanços relacionados à ansiedade e depressão”, detalha Guedes.
Para muitos participantes, o ganho foi além dos números. Gisely Pasquini descreve a EM como “a doença de mil e um sintomas”. Ao receber o diagnóstico, imaginou o pior. “Achei que era só ladeira abaixo. Depois que fui recuperando os movimentos, vi que dá para viver bem”, afirma. O projeto foi decisivo nesse processo. “Foi muito bom conhecer pessoas que vivem a mesma realidade.” No grupo, ela encontrou outra narrativa. “Ver uma senhora de 65 anos dizendo que tinha esclerose e estava bem me deu esperança. A gente aprende nossos limites e percebe que dá para viver. Tem luz no fim do túnel”, lembra Pasquini.
A advogada Josiane dos Santos recebeu a confirmação da doença pouco antes do início do estudo e encontrou nele mais que atividade física. “O projeto foi um acalento emocional. Me ajudou a entender como viver depois do diagnóstico”, diz. Para ela, ainda falta informação sobre o assunto. “Encontrar profissionais qualificados faz total diferença.”.
Amanda também ressignificou planos pessoais. “A gente entende que sim, a gente pode. Seguimos com nossos planos e nossos sonhos”, afirma. “Eu achava que nunca mais conseguiria ir ao mercado ou limpar a casa. Com o projeto, fui retomando aos poucos. Hoje tenho uma vida mais saudável do que antes do diagnóstico”, conta. Ela chegou a acreditar que não poderia ser mãe por causa da doença, mas agora pretende engravidar em breve. A convivência com outras pessoas na mesma condição também mudou sua perspectiva. “A gente entende que pode seguir com planos, inclusive ter filhos.”.
Para Josiane, o projeto representa “um passo enorme para um tratamento adequado que traz melhora de vida para cada um de nós.”.
Até quem já praticava atividades notou a diferença do acompanhamento específico. É o caso da fisioterapeuta Roberta Larissa Leonel, que convive com a EM há 13 anos e praticava exercícios regularmente. Ela participou do projeto como entrevistada. “Quando não faço atividade, sinto que vou ficando mais fraca e o equilíbrio piora. Com o ritmo bom do projeto, a gente tira de letra. Quando fico sem atividade física, o cansaço e o desequilíbrio aumentam muito. O exercício é parte do tratamento”, reforça.
Segundo Guedes, a literatura internacional já aponta benefícios do movimento desde a década de 1980, mas faltavam ensaios controlados no contexto brasileiro. Embora os testes motores não tenham alcançado mudanças expressivas em apenas 12 semanas, o pesquisador acredita que intervenções mais longas e com exercícios específicos de mobilidade possam ampliar os efeitos.
A boa notícia é que a tese de doutorado, defendida em fevereiro de 2026, se tornará um projeto de extensão com apoio financeiro da Fundação Araucária e poderá ampliar o atendimento. Uma parceria com a 15ª Regional de Saúde também permitirá que o trabalho seja levado aos pacientes do Sistema Único de Saúde, abrangendo um número muito maior de pessoas beneficiadas. A ideia é criar turmas permanentes, integradas a equipes multiprofissionais, e oferecer acompanhamento contínuo.
Esclerose Múltipla
A Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (ABEM) estima que 40 mil brasileiros convivem com a doença, que é autoimune e inflamatória. Embora as causas ainda sejam desconhecidas, a ciência sabe que se trata de uma falha na comunicação do sistema nervoso central e que atinge majoritariamente mulheres entre 20 e 40 anos de idade.
A EM não tem cura e se manifesta de várias formas, desde visão embaçada, formigamentos e fadiga intensa até fraqueza muscular e alterações no equilíbrio. Sintomas que afastam os pacientes de tarefas consideradas simples, como lavar louça e fazer compras no supermercado, ou de atividades mais cansativas, como frequentar uma academia.
O estudo apresentado por Guedes mostrou que, na dosagem certa, a prática regular de exercício físico é, na verdade, uma aliada no controle dessas lesões. Como resume Izabel: “Atividade física, aliada à medicação correta, faz a gente se sentir capaz de viver normalmente.”.
(Adriana Cardoso/Comunicação UEM)