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UEM prepara segunda edição de café cultivado em sistema agroflorestal
Por Administrador
Publicado em 01/07/2026 15:08
Notícias de Maringá

Entre bananeiras, mamoeiros, limoeiros, eucaliptos, moringas e outras espécies, os pés de café crescem livremente em uma mini floresta de 1.700 metros quadrados na Fazenda Experimental de Iguatemi, da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Em vez de fileiras uniformes e expostas ao sol, como ocorre no cultivo convencional, os cafeeiros crescem sob a sombra das árvores, em um ambiente que reproduz as condições em que a espécie se desenvolveu naturalmente.

O resultado é o Café Fazendinha, produzido 100% em sistema agroflorestal. A primeira edição foi lançada em maio e reuniu safras de 2022 a 2025, totalizando 10 sacas. A bebida, classificada como gourmet, foi disponibilizada nas versões torrada e moída. O estoque se esgotou em poucos dias.  

A colheita de uma nova remessa já começou. Desta vez, com a lavoura maior, são cerca de 300 pés de café que devem chegar a marca de 20 sacas. A expectativa é de que a produção esteja no mercado a partir de novembro.  

Sistema Agroflorestal

Originário das florestas da Etiópia, o cafeeiro é uma planta adaptada ao ambiente sombreado dos sub-bosques. Segundo o pesquisador extensionista do Núcleo de Agroecologia da UEM, Rafael Caldas, a produção em sistema agroflorestal aproxima a cultura das condições naturais de desenvolvimento. “Quando você produz o café em sistema agroflorestal, faz menos força contra a natureza. É um sistema mais equilibrado e mais próximo dos processos naturais”, explica. 

Enquanto a maior parte dos cafezais brasileiros é conduzida em monocultivo, o sistema agroflorestal reúne árvores, frutíferas e outras espécies vegetais em uma mesma área. Essa diversidade contribui para reduzir a dependência de insumos químicos e aumentar a sustentabilidade da produção. 

Outra característica dos sistemas agroflorestais é a cobertura permanente do solo por matéria orgânica. Galhos, folhas e restos vegetais formam uma camada semelhante à encontrada nas florestas, favorecendo a atividade biológica e a retenção de água. 

Rafael Caldas esclarece que esse solo vivo funciona como uma reserva hídrica natural. Em períodos de estiagem, as plantas sofrem menos estresse, tornam-se mais resistentes a pragas e doenças e apresentam melhor desenvolvimento. Além disso, a maior quantidade de matéria orgânica reduz a necessidade de fertilizantes e contribui para a manutenção da fertilidade do solo. 

A diversidade também significa maior segurança para o agricultor. Quando uma cultura enfrenta problemas climáticos ou oscilações de preço, outras atividades podem complementar a renda. 

Árvores madeiráveis, frutas e a produção animal, juntamente com o café, oferecem diferentes possibilidades de retorno econômico. Rafael Caldas mostra que essa característica faz do sistema agroflorestal uma alternativa especialmente adequada para agricultores familiares. “O produtor se torna mais independente, com menor custo e menos necessidade de insumos externos. Por isso, é um sistema ideal para pequenas propriedades”, destaca. 

Os benefícios também chegam aos apreciadores de café. Os grãos produzidos em sistema agroflorestal tem potencial para alcançar qualidade superior de bebida, já que o cafeeiro cresce em condições mais próximas às de seu ambiente de origem.

A menor dependência de insumos químicos favorece a produção de cafés orgânicos ou com reduzido uso de defensivos agrícolas. “É um produto que chega ao consumidor com altíssima qualidade”, afirma Rafael.

Café Fazendinha

O processo de produção do Café Fazendinha da UEM é praticamente todo manual. Após a colheita, os grãos passam por um período de secagem e descanso antes do beneficiamento. As etapas finais são realizadas em parceria com a família Fiorucci, de Jandaia do Sul, que está na quinta geração da cafeicultura.  

Responsáveis pelo beneficiamento, torrefação, moagem e classificação do Café Fazendinha, os produtores ressaltam que a qualidade da bebida depende de cuidados que começam muito antes da colheita. “Tudo começa com um solo equilibrado e rico em matéria orgânica. Depois vêm os tratos culturais, a colheita seletiva, a secagem lenta e a classificação dos grãos. Cada etapa tem a sua importância”, explica o agricultor Samuel Fiorucci. 

A experiência com o Café Fazendinha despertou o interesse da família em implantar áreas agroflorestais na própria propriedade. O agricultor também destaca que o sistema agroflorestal contribui para o equilíbrio da temperatura, funciona como quebra-vento e permite diversificar a produção com frutíferas e outras culturas. “Isso inspirou a gente a querer fazer também”, afirma. 

Segundo Fiorucci, os cafés especiais carregam mais do que características sensoriais: carregam histórias, tradições e conhecimentos transmitidos entre gerações. “Você não bebe só o café, você bebe a história de uma família”, resume.

Projeto sustentável

A área agroflorestal foi implantada em 2019, mas a proposta nunca foi produzir apenas café. O professor José Ozinaldo Alves de Sena, responsável pelo sistema, conta que o objetivo principal era construir um ambiente diversificado, capaz de integrar diferentes culturas e atividades.

Ao lado dos cafeeiros, o sistema reúne espécies arbóreas nativas e exóticas, frutíferas como banana, mamão, manga, limão e abacate, além da criação de galinhas para produção de ovos orgânicos e do cultivo de plantas medicinais. 

Para o pesquisador, o projeto também representa uma reflexão sobre a predominância do monocultivo no Paraná, estado que historicamente teve sua economia ligada ao café. “O sistema agroflorestal imita aquilo que existia naturalmente na paisagem. Fazemos uma transferência dos princípios da floresta para o sistema produtivo”, afirma. 

A iniciativa se tornou uma vitrine para um modelo agrícola que busca maior equilíbrio com a natureza e mais resiliência diante das mudanças climáticas.  

Além da produção agrícola, o sistema agroflorestal da UEM tornou-se uma unidade de estudos interdisciplinares. Pesquisas realizadas na área já apontam benefícios relacionados ao sequestro de carbono e à maior resistência das culturas às variações de temperatura e aos períodos de estiagem.  

Segundo José Ozinaldo Alves de Sena, a intenção é manter o espaço como referência para pesquisas e para agricultores interessados em sistemas de base ecológica. “Queremos mostrar que é possível produzir de forma diferente e mais próxima dos princípios da natureza”, afirma. 

Com previsão de chegar ao mercado a partir de novembro, a nova edição do Café Fazendinha leva para a xícara mais do que aroma e sabor. Leva também uma experiência que reúne ciência, biodiversidade e um modelo de produção voltado para o futuro da agricultura. 

(Adriana Cardoso/Comunicação UEM)

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